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[Notas para uma palestra aos transumanistas sobre a Segunda Vida, Março de 2008]

Neurociência Utopista*


Superfelicidade
Dez objecções ao aperfeiçoamento temperamental radical

    Introdução
  1. Objecção Ética
  2. Objecção Técnica
  3. Objecção da Máquina das Experiências
  4. Objecção das «Respostas Inadequadas»
  5. Objecção da Formação do Carácter
  6. Objecção do Estar Preso numa Rotina
  7. Objecção da Desagregação Social
  8. Objecção da Pressão Selectiva
  9. Objecção dos Riscos de Precipitação
  10. Objecção do Chauvinismo Carbónico
    Conclusão

Introdução

Os transumanistas são ambiciosos. Queremos esperança de vida ilimitada, inteligência ilimitada, poder de computação ilimitado. Mas isto não significa que sejamos ambiciosos acerca de tudo, por exemplo, da altura. Talvez queiramos ser um pouco mais altos, e queremos garantir que, p. ex., os anões têm a oportunidade de alcançar a estatura «normal». Porém, mesmo na Segunda Vida, ou nas realidades virtuais imersivas de amanhã, não queremos na nossa maioria ter 1000 metros de altura — apesar da liberdade perante as restrições da gravidade. Claro que há algumas criaturas muito exóticas na Segunda Vida: estas poderão dizer que os restantes de nós têm imaginações atrofiadas. Mas intuitivamente, há um nível óptimo bastante estreito para a altura do corpo. Além disso, pode-se considerar a altura como aquilo a que os economistas chamam um «bem posicional». É socialmente vantajoso ser ligeiramente mais alto do que a média; mas se todos se tornassem mais altos, então ninguém ficaria melhor por isso.

E quanto à felicidade — que vou usar aqui como uma abreviatura lamechas para o bem-estar emocional no sentido mais rico. Será que a melhor forma de considerar a felicidade é como um bem absoluto, ou como um bem posicional, como a altura? Haverá um âmbito óptimo de nível hedónico ao qual todos devíamos aspirar — tanto para nós como para os outros seres sencientes — tal como há para a estatura do corpo humano sob a influência da gravidade terrestre? Talvez se pudesse aumentar um pouco, geneticamente, o «nível predeterminado» hereditário do nosso círculo vicioso hedónico, tal como alguns de nós podem desejar ser ligeiramente mais altos. Do mesmo modo, talvez as vítimas de mau humor crónico ou de distúrbios de ansiedade possam beneficiar de terapias genéticas ou drogas sintéticas de modo a poderem alcançar uma versão idealizada da saúde mental «normal» de hoje em dia — tal como as hormonas de crescimento podem ajudar os que são «anormalmente» baixos.

Há uma concepção muito mais radical. Estará a felicidade mais intimamente relacionada com a inteligência ou a esperança de vida, algo que os transumanistas deveriam procurar aperfeiçoar sem limites — com as consequências quase inimagináveis que tal incremento indefinido implica? A Declaração Transumanista exige o «bem-estar de toda a senciência». Mas o bem-estar abrange tudo desde o contentamento mais simples até às experiências culminantes ordens de magnitude mais maravilhosas do que os seres humanos não aperfeiçoados podem compreender. Quão ambiciosos, ao certo, deveriam os agentes racionais procurar ser no âmbito do aperfeiçoamento dos nossos meios de gratificação — tanto para nós como para outras formas de vida? O que é tecnicamente viável? Quais os potenciais abismos? Poderia algo correr catastroficamente mal? Deveriam alguns estados/espaços de senciência ser perpetuamente interditos como demasiado maravilhosos para sequer explorar?

Não pretendo responder aqui a esta pergunta. Por acaso, prevejo que os pós-humanos superinteligentes serão animados por gradientes de felicidade literalmente biliões de vezes mais ricos do que qualquer coisa que seja biologicamente acessível hoje; mas se tais civilizações existem ou não aquém de ramificações de densidade extremamente baixa da função de onda universal é pura conjectura. Ao invés, quero colocar dez objecções à amplificação indefinida do bem-estar — e esboçar dez respostas possíveis.

1) A Objecção Ética
Mesmo o discurso sobre a super-saúde psicológica pós-humana é moralmente frívolo. Discutir níveis de felicidade pós-humana assemelha-se às discussões dos teólogos medievais sobre os diferentes níveis da hierarquia celestial — todos esses anjos, arcanjos, querubins, serafins, e coisas semelhantes. De volta ao mundo real, há biliões de seres sencientes, humanos e nonumanos, que sofrem graus diversificados de mal-estar. Não faz sentido concentrarmo-nos obsessivamente no lado mais desagradável da vida; mas mesmo os que entre nós são mais saudáveis e felizes se encontram em perigo mortal de terminar as suas vidas «sem dentes, sem olhos, sem gosto, sem coisa alguma». Garantir um mínimo de bem-estar a todas as criaturas sencientes é já de si um desafio tecnológico e ideológico imenso. Numa tonalidade mais positiva, muito se pode conseguir por meio de um progresso incremental. Assim a iminente revolução reprodutiva dos bebés por encomenda deveria levar a uma pressão selectiva «contrária ao natural» contra alguns dos nossos genes mais indesejáveis — permitindo que nos tornemos mais inteligentes, mais felizes, mais longevos, mais controversamente, talvez mais simpáticos. Crucial para o bem-estar de toda a senciência, é imperativo que paremos de nos matar e comer uns aos outros. Para que esta visão utópica se realize, será preciso que na nossa dieta a carne de animais nonumanos criados em unidades agro-industriais seja substituída por carne de cultivo geneticamente modificada, barata e saborosa; talvez a biotecnologia mais a economia de mercado sejam bem-sucedidas onde os argumentos morais fracassam. Mas em última análise, pôr fim ao holocausto darwinista e garantir o bem-estar de toda a vida senciente implica um mega projecto de engenharia: reprogramação genética, nanorobótica e a reconcepção de ecossistemas que alcance os recessos oceânicos mais profundos. Por que pedir mais então? Se e quando o projecto abolicionista for completado, segundo esta objecção, teremos cumprido todas as nossas obrigações éticas. Ou pelo menos só depois de o sofrimento ter sido abolido em todo o mundo vivo deveríamos considerar intervenções realmente revolucionárias para enriquecer as nossas vidas emocionais. Talvez o crítico aqui seja um neobudista, ou um utilitarista negativo, ou talvez um bioconservador esclarecido que partilha o desejo de se livrar da crueldade e do sofrimento [involuntário], mas não vê qualquer necessidade de ir mais longe do que esta abolição.

Resposta Possível
Tenho uma imensa simpatia por esta objecção. A urgência moral de usar a biotecnologia para erradicar o sofrimento deveria ser cuidadosamente distinguida dos voos especulativos ou fantasias sobre «construção de paraísos» e coisas semelhantes. A menos que sejamos utilitaristas clássicos estritos, o alívio do sofrimento tem maior peso moral do que o aperfeiçoamento do bem-estar. Pelo que nesse sentido, o tópico desta discussão é comparativamente pouco importante — e talvez até se o possa considerar moralmente trivial. Contudo, é difícil crer que haja um mal moral intrínseco ao planeamento a longo prazo. Vale a pena sublinhar que nenhuma das coisas que os transumanistas desejam tão ardentemente — esperança de vida ilimitada, superinteligência, liberdade morfológica, modalidades sensoriais e de consciência novas, nanotecnologia molecular, etc. — nos deixarão significativamente mais felizes a longo prazo a menos que também reconcebamos/reajustemos o nosso círculo vicioso hedónico. Se optarmos por fazê-lo, então parece arbitrário «congelar» o seu reajuste genético numa configuração absolutamente mínima necessária para abolir as bases do sofrimento — ou «vincular» meramente a um incremento modesto no âmbito superior do nível hedónico além desse simples mínimo. Porquê essa falta de ambição?

Claramente, este não é o lugar para um tratado filosófico sobre a natureza do valor. No entanto, não é preciso ser um hedonista de qualquer tipo ou um utilitarista clássico para reconhecer que a criação de bem-estar emocional vitalício e a criação de valor estão intimamente ligadas. Provisoriamente, esbocemos uma fraca ainda que fértil hipótese de trabalho. Inalterado tudo o mais, o que há de mais gratificante em música, comédia, arte, jogos de computador, software de realidade virtual, etc., é mais valioso do que as suas contrapartes menos agradáveis. Um mundo com experiências cada vez mais intensamente gratificantes é, inalterado tudo o mais, preferível a mundos emocionalmente mais empobrecidos por comparação. Evidentemente, como o crítico muito justamente insistirá, é muito frequente as coisas não serem iguais. Todos podemos citar múltiplos contra-exemplos. Mas intuitivamente são os afastamentos relativamente ao pressuposto canónico que precisam de justificação, não o próprio pressuposto canónico.

Talvez esta resposta seja um pouco abstracta. Pelo que, para fins de ilustração, procure recordar por um momento a mais maravilhosa «experiência culminante» da sua vida. Imagine que as bases neuronais dessa experiência podiam ser identificadas, geneticamente aperfeiçoadas e condicionalmente activadas quando se quisesse. Suponha, mais controversamente, que a neurociência utopista será capaz de identificar as assinaturas moleculares complexas de quaisquer experiências humanas valiosas e amplificar as suas bases biológicas. Serão as experiências pós-humanas que parecem milhões de vezes mais valiosas do que as experiências culminantes de hoje em dia realmente milhões de vezes mais valiosas? Ou, ao invés, como afirma o niilista moral, serão os juízos de valor, pela sua própria natureza, desprovidos de valor de verdade? Será que este debate não vai além da mera opinião superficial, dado não se poder colmatar a distinção entre facto e valor? Deixo aqui a questão em aberto; mas se, provisoriamente, podemos pressupor que as nossas experiências (algumas delas) são mais valiosas do que as melhores experiências de, digamos, de uma minhoca, então podemo-nos perguntar se os modos de senciência pós-humanos poderão ou não ser proporcionalmente mais valiosos do que os nossos. Assim se o valor pode ser naturalizado e aperfeiçoado biologicamente, por que não planear o modo de criar uma abundância sustentável das suas bases moleculares pelos meios mais eficazes computacionalmente? Ou pelo menos, antes de emitir juízo sobre o bem-estar pós-humano, descubramos primeiro aquilo que estamos a perder.

2) A objecção técnica (ou objecções técnicas)
É inteligível falar em tornar-se 1000 vezes mais alto — embora a biomecânica pudesse constituir um problema. Mas fará sequer sentido falar em tornar-se 1000 vezes mais feliz — excepto como figura de retórica? Poder-se-á de todo tratar sensatamente a felicidade como categoria biológica? Será o bem-estar emocional realmente um fenómeno natural que pode ser objectivamente medido e quantificado? Será que a felicidade e outros estados mentais desejáveis têm realmente bases neurológicas bem definidas que possam ser selectivamente amplificadas, indefinidamente? Haverá sequer uma escala de prazer-dor unidimensional?

Resposta Possível
«Felicidade» é de facto uma etiqueta grosseira, que evoca tudo desde os mais nobres triunfos do espírito humano a um dia ameno passado à beira-mar. Identificar os correlatos moleculares dos nossos estados emocionais em termos de densidade de receptores e frequências de ocupação e neurotransmissores, variantes de ligação alternativos, proteínas fosforiladas, perfis de expressão genética, etc., é um desafio intimidante para a neurociência computacional. No futuro, o nosso esquema conceptual para as emoções terá de ser enriquecido juntamente com o nosso próprio reportório de emoções. A dada altura, algumas das nossas emoções mais detestáveis poderão ser abolidas: o seu papel computacional de aperfeiçoamento de aptidões na savana africana é agora redundante. Outras poderão ser reajustadas: o análogo pós-humano do tédio, por exemplo, não tem de ser desagradável para conservar um papel funcional análogo; subjectivamente, os seus análogos pós-humanos apenas precisam de ser comparativamente menos interessantes do que o fascínio deslumbrado. Mais especulativamente, os genes para emoções nucleares novas podem ser integrados nas vias límbicas: a nossa palete emocional pode ser geneticamente alargada. A questão de existir ou não uma escala de prazer-dor unidimensional é controversa. Em ratos, pelo menos, o derradeiro «ponto quente hedónico» é um único milímetro cúbico de tecido de neurónios espinais na região retrodorsal da membrana média do núcleo acumbente. Mas mesmo que se constate que nada há de semelhante ao meio de gratificação final no cérebro humano, tal complexidade não mudaria fundamentalmente a viabilidade técnica do crescimento emocional indefinido. À medida que a tecnologia de tomografia cerebral computorizada se torna cada vez mais sofisticada e detalhada, seremos capazes de identificar os múltiplos correlatos neurais do bem-estar e «sobre-exprimi-los» selectivamente de modos que transcendem a antiquada manipulação ambiental.

Mais concretamente, relembremos como os sagazes «Doogie mice»* com uma cópia extra do subtipo NR2B do receptor NMDA sofriam de uma sensibilidade crónica acrescida à dor. Esse é um exemplo detestável. Bom, conversamente, os neurocientistas podem em princípio ligar geneticamente em múltiplas cópias extra de outros subtipos de receptor, p. ex., o receptor mu-opióide, associado ao nível hedónico. A terapia genética pode já ser usada experimentalmente para multiplicar por mil o número de receptores opióides que se exprimem nas superfícies das células nervosas que transportam sinais de dor para trás e para a frente entre uma articulação artrítica e a medula espinal; a dor acaba. No futuro, a capacidade de reacção das células nervosas a opióides endógenos que ocorrem naturalmente também pode ser aumentada por via do aperfeiçoamento dos receptores no cérebro. Em princípio, podemos modular a sua «sobre-expressão» vitalícia, intermitentemente intensificada (ou suavemente diminuída) por quaisquer tipos de contingências pessoais e ambientais que consideremos apropriadas. Tanto funcional como anatomicamente, os nossos meios de gratificação podem tornar-se «maiores e melhores». Mas o autodomínio emocional inteligente envolverá a reestruturação do cérebro/mente de modo a derivarmos a gratificação mais intensa de actividades que consideramos mais valiosas a longo prazo: ou seja, dar aos nossos desejos de ordem superior precedência sobre os apetites ancestrais de primeira ordem. A selecção natural «encefalizou» as nossas emoções para benefício dos nossos genes. Os agentes racionais podem «re-encefalizar» as nossas emoções para nosso benefício.

A longo prazo, talvez o grande desafio, tecnicamente, em si não seja amplificar os circuitos de «gratificação» ou reformular geneticamente os circuitos de «punição». O desafio real adiante pode ser fazê-lo de modos que sejam socialmente responsáveis, intelectualmente perspicazes, compassivos, que preservem o comportamento de cuidar das crias, evitem despoletar a psicose ou a mania, e não provoquem efeitos secundários adversos – quer para o indivíduo aperfeiçoado quer para a sociedade no seu todo. Estas são restrições severas. Por exemplo, um problema dos ditos «antidepressivos» existentes não é apenas serem frequentemente ineficazes e «sujos»; também podem despoletar a mania nos geneticamente susceptíveis em vez de bem-estar de elevada funcionalidade. [ver também «Touched with Fire: Manic-Depressive Illness and the Artistic Temperament» (1993) de Kay Redfield Jamison] Tornar-se realmente «melhor do que bem» implica não só uma maior longevidade com o sentimento de estar «no topo do mundo», mas conservar a sagacidade, a acuidade e a inteligência social. Na mania, o discernimento crítico perde-se.

Estou aqui a pressupor algo controverso. O modo tradicional de produzir, digamos, beleza estética é criar uma pintura ou uma escultura que suscite uma reacção estética gratificante no público. Daí as artes decorativas. O modo avançado de criar beleza que inspire admiração é usar tecnologia de tomografia cerebral computorizada, identificar a assinatura neural da experiência estética, purificar a sua essência biomolecular e então amplificar as suas bases. Pode-se então despoletar selectivamente experiências de beleza transcendente por encomenda de um modo muito mais poderoso do que hoje em dia – talvez geridas a partir de um interface fácil de manejar tão intuitivo como o seu iPod, talvez activado pelo pensamento, ou talvez impulsionado por estímulos, como acontece hoje. Por isso a afirmação de que os pós-humanos podem ter a capacidade inata de ter experiências estéticas biliões de vezes mais belas do que qualquer coisa acessível no presente – possivelmente mais depois de se superarem as restrições absurdas do canal de nascença humano: os úteros artificiais não são mais «contrários à natureza» do que as roupas artificiais. Diz-se que os místicos e os poetas conseguem «ver o mundo num grão de areia»; mas no futuro, por que não poderiam os restantes de nós melhorar a as nossas configurações estéticas normais de modo que o nosso nível predeterminado de reconhecimento de beleza flutue sobre uma linha de base muito mais elevada? A fruição estética pós-humana (quase) de certeza não será uniforme – um indiferente «uau» cósmico. Mas em pelo menos um conjunto de cenários, a vida quotidiana pós-humana pode consistir inteiramente em gradientes do sublime.

Ou para usar outro exemplo especulativo: a via tradicional para a experiência espiritual é através da disciplina meditativa e da oração. A via futurista – se pensamos que a espiritualidade é uma dimensão valiosa da experiência – é identificar as bases neutras da experiência espiritual, talvez mesmo as bases neurais da revelação divina e da experiência de Deus, e então amplificá-las, retirando o lixo fortuito e amplificando simultaneamente a sua essência molecular e os meios metabólicos de regular a sua expressão. Devia ser tecnicamente viável aos nossos descendentes fruírem experiências quotidianas do divino biliões de vezes mais profundas do que qualquer coisa fisiologicamente possível hoje em dia. [Este argumento pode ser usado para refutar a acusação de que os transumanistas são materialistas insensíveis inconscientes das dimensões mais férteis da experiência. Alguns de nós habitam de facto um ermo espiritual. Mas ironicamente, são os bioconservadores religiosos quem impede os ateus de comungar com o divino; e são os místicos tradicionais quem impede os restantes de nós de aceder às tecnologias da experiência mística.]

Reconhecidamente, este tipo de reducionismo neurológico pode facilmente soar a frenologia. Um crítico pode jocosamente referir que podíamos igualmente falar no cérebro como algo que tem um «centro de humor» – e também em «aperfeiçoar as suas bases biológicas». Bom, curiosamente, o cérebro tem mesmo um centro de humor, não só funcional mas anatomicamente. Estimular rudimentarmente uma região do córtex temporal basal induz um sentido indiscriminado de que tudo é hilariantemente cómico. Mas em vez da neuroestimulação rudimentar da gratificação indiscriminado, os nossos descendentes [ou eus futuros?] poderão decidir reajustar a configuração predefinida da sua resposta de humor. Hoje descrevemos algumas pessoas como temperamentalmente destituídas de humor; outras pessoas são propensas a ver o lado cómico da vida. Bom, supondo que um sentido de humor perspicaz é valioso, e se pudéssemos redefinir a nossa propensão para achar graça às coisas? Haverá um âmbito de humor óptimo para um dado ambiente – baixo e raramente expresso na vida selvagem darwiniana, modestamente mais elevado para os pós-humanos? Ou será que o âmbito do nosso sentido de humor devia ser aumentado indefinidamente quando as condições o permitirem? Pois se podemos identificar as bases neurais do humor, podemos também enriquecer biologicamente estas bases indefinidamente. Em teoria, dado um mundo pós-humano sem sofrimento, os nossos descendentes podiam apreciar um humor de uma riqueza hilariante biliões de vezes superior a qualquer coisa que seja possível hoje. O caminho tradicional para o génio cómico tem sido imaginar piadas mais cómicas ou escrever uma obra-prima de comedia. O caminho pós-humano sofisticado para cultivar um sentido de humor fantástico não é (apenas) ser mais espirituoso; é amplificar e enriquecer as bases neurais da diversão. Isto pode parecer uma receita para a inanidade. Por outro lado, relembremos a observação de Wittgenstein de que se podia fazer um bom trabalho filosófico que consistisse inteiramente em anedotas. Num mundo darwinista cheio de sofrimento esta perspectiva pode parecer obscena; amanhã tal mentalidade pode parecer perfeitamente apropriada.

Certo, é um exemplo invulgar. Porém, exactamente o mesmo raciocínio aplica-se a gradientes de felicidade transmissores de informação; e dada mesmo uma versão fraca do princípio do prazer, a adopção de um sistema motivacional baseado em gradientes de felicidade é mais sociologicamente plausível do que uma propensão intensificada para achar graça a tudo. Assim o caminho arcaico para aperfeiçoar o bem-estar tem sido através da manipulação do ambiente exterior – temperada ocasionalmente por um pouco de abuso desastrado do álcool. As utopias ambientalistas esbarram na natureza humana e nos mecanismos de retroacção inibitórios do círculo vicioso hedónico. O seu oposto polar é a implantação cerebral electrónica (wireheading): estimulação directa dos centros de prazer. A wireheading é eficaz mas indiscriminado. Não é uma solução evolutivamente estável. O caminho pós-humano maduro para a felicidade continuará, presumivelmente, a aceitar o aperfeiçoamento ambiental; mas um ambiente percepcionado/simulado através de que tipo de filtros afectivos? Talvez o input sensorial pós-humano seja processado através de um meio noético inatamente feliz. Claro que é tecnicamente muito mais difícil amplificar gradientes de emoções sociais complexas, «densas», do que amplificar a felicidade orgástica bruta, ou mesmo os arroubos espirituais. Todavia, essa amplificação pode ser conseguida, caso assim se o deseje, à medida que se aperfeiçoam a nossa tecnologia de análise neural e terapia genética. As tecnologias da felicidade cerebral sustentada são viáveis em princípio. O desafio é usá-las sensatamente a uma escala planetária e além disso. Infelizmente, a «sensatez» não está aqui bem definida.

3) A objecção da MÁQUINA DAS EXPERIÊNCIAS
Segundo esta objecção, a perspectiva de aumentar «artificialmente» o nosso nível hedónico predeterminado através de intervenções biotecnológicas equivale apenas a uma versão da hipotética Máquina de Experiências do filósofo da Universidade de Harvard, Robert Nozick. Relembremos a breve secção de Anarquia, Estado de Utopia (1974) em que Nozick supostamente refuta o hedonismo ético pedindo-nos para imaginar uma máquina utópica que pode induzir nos seus utilizadores experiências de seja o que for, segundo a vontade destes. Uma Máquina das Experiências completa presumivelmente proporcionará também a superautenticidade: os seus utilizadores poderiam ainda congratular-se por terem optado ficar ligados ao mundo real – tendo sensatamente rejeitado as blandícias dos evangelistas da Máquina das Experiências e as suas fantasias escapistas. Em todo o caso, dada esta oportunidade hipotética de testemunhar a realização de todos os nossos sonhos, (provavelmente) a maioria de nós não a aproveitaria. A nossa rejeição mostra que valorizamos muito mais do que meras experiências. Certo, prossegue esta objecção, a neurociência milenar pode ser tecnicamente capaz de criar experiências milhões de vezes mais maravilhosas do que qualquer coisa ao alcance de mentes darwinianas. Mas e depois? São os factos independentes da mente no mundo real que importam – e importam de algum modo para nós – não a falsa felicidade.

Resposta Possível
Esta Objecção não é imaginativa. É provável que no futuro tecnologias semelhantes à da Máquina das Experiências sejam tecnicamente viáveis, talvez combinando a Realidade Virtual imersiva, nanorobotas neurais
1 e uma reconfiguração dos centros de prazer. É concebível que essas tecnologias se possam tornar amplamente disponíveis ou até ubíquas – embora seja um problema saber se o seu uso global poderia ser sociológica ou evolutivamente estável para toda uma população. [Se o leitor realmente pensa que as Máquinas das Experiências podem tornar-se ubíquas, poderá indagar (matizes do Argumento da Simulação) se estatisticamente está já ou não com grande probabilidade ligado a uma delas. Esta hipótese é mais convincente se o leitor é um optimista com amor à vida que julga viver no melhor dos mundos possíveis do que se for um depressivo darwiniano convencido de que está a viver numa cave hedionda.]

Porém, viável ou não, as Máquinas das Experiências não são o tipo de tecnologia hedónica em causa. Reajustar geneticamente o nosso círculo vicioso hedónico para configurações progressivamente mais elevadas não tem de promover o crescimento de mundos de fantasia escapistas. O aumento ponderado, incremental, de nível hedónico normal pode permitir aos (pós-)humanos envolver-se com o mundo – e uns com os outros – não menos intimamente do que antes; e talvez mais. Por contraste, as suas disfunções de ansiedade social e depressão clínica associadas à supressão e retracção comportamental. Inalterado tudo o mais, uma população progressivamente mais feliz será também mais socialmente empenhada – entre os seus membros e com o que é consensualmente considerado a realidade. De momento, é notável que as pessoas mais felizes tendem a levar as vidas sociais mais preenchidas; inversamente, os depressivos tendem a ser solitários e socialmente isolados. A super-saúde mental pós-humana pode de facto ser inconcebivelmente dissemelhante do mundo dos seres mais felizes que vivem hoje: saturada de significado e vibrantemente autêntica a um grau que fisiologicamente não conseguimos imaginar. Porém, este maravilhoso resultado não será – ou pelo menos não precisa de ser – explicável porque os nossos descendentes são escapistas ligados a Máquinas de Experiências, mas porque a vida pós-humana é intrinsecamente maravilhosa.

Talvez. Na verdade, a resposta anterior à objecção da Máquina das Experiências é simplista. Simplifica excessivamente as questões porque para a totalidade de um âmbito de fenómenos simplesmente não há um facto independente da mente que pudesse potencialmente justificar objecções do estilo da objecção da Máquina das Experiências – e desencorajar o uso futuro de tecnologias semelhantes à da Máquina das Experiências por medo de que nos desfasemos da Realidade. Compare-se, digamos, a beleza matemática com a beleza artística. Se o leitor é um matemático dedicado, não quer apenas ter experiência da epifania de resolver uma equação importante ou conceber uma prova elegante de um teorema matemático. Quer também que essa solução ou prova seja realmente verdadeira num sentido platónico profundo. Mas se criar, digamos, uma escultura ou uma pintura, então a sua beleza (ou inversamente, a sua fealdade) está inescapavelmente no olhar de quem vê; não há uma verdade independente da mente além da resposta subjectiva do público. Para um esteta que deseja ter experiência da beleza fenoménica, simplesmente não há um facto além da qualidade da própria experiência. A beleza não é menos real e seguramente parece um facto do mundo; mas é subjectivo. Se é assim, então por que não criar as bases da superbeleza pós-humana em vez da mera agradabilidade artística?

Há também um sentido em que os nossos cérebros já são Máquinas das Experiências (disfuncionais). Consideremos o sonhar. Devíamos consumir drogas para suprimir o sonho REM porque os nossos sonhos não são verdadeiros? Ou quando despertos, devia a fruição de um belo pôr-do-sol ser ofuscada pelo conhecimento de que as propriedades secundárias como a cor são dependentes da mente? [A teoria quântica sugere que as qualidades «primárias» macroscópicas clássicas, como normalmente concebidas, são também dependentes da mente; mas essa é outra história] Se o leitor tivesse nascido monocromata que vê o mundo em diferentes tonalidades de cinza, então como racionalista científico ferrenho, devia rejeitar a terapia genética da visão a cores a pretexto de que as cores fenoménicas são falsas – e a relva não é intrinsecamente verde? Não, de acordo com o consenso comum a experiência visual enriquece-nos, ainda que, estritamente falando, estamos a criar a realidade em vez de a simular e/ou percepcionar. Ou para dar outro exemplo: e se as tecnologias de aperfeiçoamento neural pudessem modificar controladamente os nossos filtros estéticos de modo a vermos as mulheres de 80 anos como mais sexualmente atraentes do que as mulheres de 20 anos? Será esta percepção falsa ou inautêntica? Intuitivamente, talvez seja. Mas na verdade, a percepção é tão autêntica como ver mulheres de 20 anos de excelente potencial reprodutivo como sexualmente mais atraentes. A evolução enviesou os nossos filtros perceptivos existentes de modos que maximizaram a adaptação inclusiva dos nossos genes no ambiente ancestral; mas no futuro, podemos optimizar o bem-estar dos seus veículos (ou seja, nós). Gradientes de bem-estar biliões de vezes mais ricos do que qualquer coisa de que os humanos têm experiência são tão genuínos como o verde da relva (ou o encanto de Marilyn Monroe). Poderiam tais estados tornar-se tão comuns como a relva? Mais uma vez, suspeito que sim; mas a especulação é barata.

4) A objecção do COMPORTAMENTO INAPROPRIADO.
Alguns críticos receiam que promover a superfelicidade possa levar ao que se pode chamar, informalmente, respostas comportamentais «inapropriadas». As aspas são necessárias porque o nosso sentido do que é apropriado é sistematicamente enviesado pelo nosso passado evolutivo. Todas as nossas intuições estão afectadas. Mas para dar um exemplo concreto de impropriedade como esta é comummente compreendida: suponhamos que caía sob o autocarro proverbial. Mesmo que o acidente não lhe causasse sofrimento, gostaria mesmo que os seus amigos ficassem felizes ao ouvir a notícia, apesar do seu infortúnio? Com menor dramatismo, mesmo enquanto a vida melhora, presumivelmente continuaremos a cometer erros. Haverá reveses e desacordos, talvez desacordos profundos. O feedback negativo é vital para preservar a sageza critica. Mesmo que o sofrimento como o compreendemos hoje seja abolido, será seguramente necessário algo análogo à ansiedade e ao descontentamento como motor do progresso?

Resposta possível
Um contra-argumento a isto é o de que mesmo o enriquecimento radical do nível hedónico pode preservar um âmbito completo de mecanismos de retroacção negativos. Opcionalmente, o nosso âmbito de contraste hedónico pode efectivamente ser aumentado – ainda que o chão afectivo geneticamente predeterminado da pós-humanidade seja colocado acima do tecto afectivo de hoje em dia. Para a maioria dos objectivos, contudo, gradações subtis e matizes de nível hedónico podem supostamente bastar. Os pós-humanos enriquecidos podem ainda ser informativamente sensíveis a estímulos bons e «maus» mesmo que o nosso «nível predeterminado» hedónico de base seja elevado a ordens de magnitude além da norma contemporânea. Podemos ainda ter experiência dos análogos funcionais de alguns dos sentimentos negativos de hoje mesmo quando as texturas da consciência se tornam cada vez melhores. Também opcionalmente, será viável preservar a maior parte da nossa estrutura preferencial existente. Se o leitor prefere Beethoven a Brahms, ou filosofia a jogos infantis, então enriquecer o nível hedónico pode ainda deixar a sua estrutura preferencial mais ou menos intacta. As proporções contrastivas hedónicas podem em princípio ser conservadas mesmo que a própria escala seja reajustada. Ora, evidentemente que há razões sérias para perguntar se realmente queremos ou não deixar intocada a nossa estrutura preferencial existente. Afinal, muitos dos nossos desejos e preferências nucleares são muito desagradáveis: foram moldados pela história evolutiva de dentes e garras vermelha da humanidade para permitir ao ADN egoísta fazer mais cópias de si próprio. Talvez muitas das nossas preferências mais detestáveis devam ser abolidas em vez de meramente reajustadas. Mas o «conservadorismo das preferências» é consistente com as tecnologias de enriquecimento hedónico aqui discutidas – pelo menos como opção teórica. Na prática, uma revolução conceptual congruente acompanharia (presumivelmente) o enriquecimento hedónico global. Não podemos imaginar senão com grande dificuldade a sua natureza e alcance. E quanto ao luto? Devia a dor perante a perda ser abolida antes de termos conquistado a morte – um desafio biotecnológico muito mais formidável do que enriquecer o bem-estar subjectivo? Bom, se eu fosse atropelado pelo proverbial autocarro, quereria de facto, sem dúvida egoistamente, que esse acidente diminuísse o bem-estar dos meus amigos. De outro modo ser-me-ia difícil concebê-los como amigos. Mas se valorizamos realmente os nossos amigos então seguramente que não quereríamos – seguramente não deveríamos – querer que eles sofram por nossa causa. Uma redução condicionalmente activada do seu bem-estar, segundo o meu argumento, é o máximo que se pode apropriadamente pedir. Se falássemos de respostas «inapropriadas», então um candidato de primeira linha talvez fosse o desejo darwiniano de que os outros sofram, incluindo ocasionalmente aqueles que nominalmente «amamos». De um modo mais prosaico, pode-se esperar que os transumanistas venham a ter cuidado ao atravessar estradas.

5) A objecção da FORMAÇÃO DO CARÁCTER
Uma quinta preocupação é a de que os gradientes de bem-estar extremo possam ser – mais uma vez falando informalmente – maus para o nosso carácter. Imaginamos foliões que praticam um estilo de vida «hedonista» no sentido popular do termo, ou toxicodependentes, ou pais irresponsáveis que não cuidam dos seus filhos. Um exemplo futurista de deterioração do carácter podiam ser variantes de implantação cerebral electrónica – talvez sob a forma de um neurochip que proporciona felicidade indiferenciada. Em geral, episódios de bem-estar «contra-naturalmente» elevado tendem a promover o egoísmo, a autocentração, à falta de discernimento, ao comportamento arriscado e maníaco – e a falta de consideração pelos outros. Sem dúvida, prossegue a objecção, o futuro da vida no universo não se prenuncia por análogos da implantação cerebral electrónica, da heroína e da cocaína crack.

Resposta possível
De facto não. Um contra-argumento a isto é o de que a verdadeira engenharia hedónica, por contraste com o hedonismo insciente ou a experimentação pessoal sem escrúpulos, podem ser profundamente boas para o nosso carácter. As tecnologias de edificação do carácter podem beneficiar de igual modo os utilitaristas e os não utilitaristas. Potencialmente, podemos usar uma convergência de biotecnologia, nanorobótica e tecnologia da informação para obter controlo sobre as nossas emoções e tornar-nos seres (pós-)humanos melhores, cultivar as virtudes, força de carácter, decência, tornar-nos mais afáveis, amigáveis, mais compassivos: tornar-nos o tipo de seres (pós-)humanos que podemos aspirar a ser, mas não somos, e biologicamente não podemos ser, com a maquinaria neural de mentes inaperfeiçoadas. Dada a nossa biologia darwiniana, demasiadas formas de comportamento admirável simplesmente não são suficientemente gratificantes para que as pratiquemos consistentemente: os nossos desejos de segunda ordem, de viver vidas melhores como pessoas melhores são amiúde ecos frágeis das nossas paixões mais básicas. Demasiadas formas de actividade cerebral são menos imediatamente satisfatórias e exigem uma maior capacidade de gratificação retardada, do que as suas contrapartes incultas. De igual modo, muitas formas de comportamento altruísta – inclusive dar uns escassos 10% do rendimento à Oxfam, por exemplo – são menos gratificantes do que o consumo pessoal. Mas no futuro deve ser viável retirar gradientes de felicidade de exuberantemente condimentados de estudar dezasseis horas por dia, ou ser angelicamente afável e «loucamente» generoso. O controlo pós-humano das nossas emoções deve permitir-nos amplificar as características que consideramos admiráveis, superando as limitações das mentes darwinianas de modos que a manipulação ambiental por si só não pode igualar. Superficialmente, Second Life permite-nos dar corpo às personagens do tipo de seres que idealmente gostaríamos de ser; mas as tecnologias de enriquecimento no futuro podem dar-nos o poder de nos tornarmos seres ideais nas encarnações das nossas Primeiras Vidas também.

É digna de nota uma preocupação acerca desse cenário cor-de-rosa. Será que a superfelicidade geneticamente definida nos privará da oportunidade de crescimento pessoal, das lutas formadoras do carácter contra a adversidade, e a oportunidade de praticar o auto-sacrifício heróico?

Bom, afirmou-se da falecida Madame de Stael que esta lançaria todos os seus amigos à água pelo prazer de os retirar de lá outra vez; e seguramente uma civilização regida por gradientes de superfelicidade não teria necessidade do heroísmo no sentido tradicional. Mas a super-saúde mental vitalícia não tem de fazer de nós sentimentalistas. Muito pelo contrário: os sistemas de circuitos super-enriquecidos prometem tornar-nos mais determinados e portanto mais capazes de realizar os nossos projectos de vida – e promover o bem-estar de outros. São os clinicamente depressivos e outras vítimas do «desespero culto» que desistem com demasiada facilidade: infelizmente, há mais do que um fundo de verdade no estereótipo popular dos depressivos como «fracos». Por contraste, a superfelicidade geneticamente predestinada promete às crianças de amanhã personalidades «maiores do que a vida», integridade a toda a prova, e um autocontrolo mais forte do que qualquer coisa neurologicamente viável hoje. Potencialmente, a superfelicidade permitirá também aos não utilitaristas realizar os seus projectos de um modo mais eficaz.

Obviamente, continua a ser uma questão inteiramente em aberto se iremos ou não usar essas terminologias com prudência – se é que as usamos de todo. Mas dados os terríveis naufrágios emocionais da vida darwiniana, por que não haveríamos de (re)projectar as nossas personalidades à luz das mesmas especificações rigorosas que exigimos, digamos, dos nossos carros? Por que não seria a vida pós-darwiniana robusta, alegre e à prova de choque?

6) A objecção de «FICAR PRISIONEIRO DE UMA ROTINA»
Esta é a preocupação de que aumentar directamente o bem-estar com intervenções neurobiológicas leve uma civilização a ficar encurralada numa rotina subóptima. Esta não é a objecção com base na história, segundo a qual a perseguir visões utópicas conduz inevitavelmente a pesadelos distópicos. Na verdade, talvez haja um sentido importante no qual nada pode correr mal. No sentido vulgar, desagradável, de «correr mal», se substituir as bases do sofrimento e da depressão com gradientes adaptativos de felicidade. Mas essa é a ideia subjacente desta objecção: procurar demasiado ávida ou prematuramente o que se apresenta pode fechar-nos permanentemente num nível óptimo local que nos impede de maximizar o nosso pleno potencial – independentemente do que em última análise esse potencial possa ser. Podia-se pensar aqui em análogos de acção prolongada do soma, a droga hedónica supostamente ideal de Aldous Huxley, ou análogos mais polidos e globalmente sustentáveis da implantação cerebral electrónica. Não, isto não é o gulag; mas decerto os transumanistas têm o direito de esperar mais.

Resposta possível
Mais uma vez, não se pode por de parte este cenário. Mas a sua própria conceptibilidade é uma razão por que a humanidade faria bem em pensar de antemão estrategicamente em vez de «tropeçar na felicidade» colectivamente, para usar a expressão prometedora de Daniel Gilbert. A probabilidade que atribuímos a esses cenários de rotina global depende dos tipos de bem-estar biologicamente aperfeiçoados, se os houver, que os nossos descendentes decidirem aceitar. Por exemplo, talvez a codificação genética das bases do bem estar contemplativo, místico, pareça potencialmente atraente a pessoas com um enquadramento mental perturbado hoje, em especial os temperamentalmente ansiosos e cheios de angústia. Os budistas, evidentemente, identificam a extinção do desejo com o Nirvana. Todavia, conceber globalmente este tipo de felicidade vitalícia pode realmente levar à estagnação comportamental – e a uma civilização inteira em inércia permanente – ainda que proporcione um crescimento espiritual sem precedentes. Ora, em resposta poderíamos dizer: e depois? Mas em vez de optar por se tornar constitucionalmente sereno, talvez os responsáveis políticos persuadidos pela objecção «preso numa rotina» devam ao invés promover elementos do que (muito) aproximadamente se pode classificar como «bem-estar dopaminergicamente aperfeiçoado» - com a sua tendência para a procura intensificada de novidades, comportamento exploratório e curiosidade intelectual. Infelizmente, este tipo de bem-estar tem múltiplas dificuldades próprias. Pelo que os modos de bem-estar biológico radicalmente diferentes de qualquer estereótipo humano contemporâneo merecem também ser exaustivamente investigados. Mas pelo menos a médio prazo, é presumivelmente mais provável os futuros «orientados para o exterior» desenvolverem-se do que as civilizações introvertidas baseadas em variedades de felicidade meditativa. Pois falta povoar um nicho ecológico na forma da nossa galáxia local. Os nichos ecológicos inocupados tendem a ser preenchidos. A menos que nos tornemos todos contemplativos, ou todos adoptemos por viver na Realidade Virtual imersiva, etc., é provável que os nossos descendentes se disseminem e colonizem o universo acessível dentro do nosso cone de luz. O que farão a seguir não é claro.

7) A objecção do SOCIALMENTE DESTRUTIVO
O bem-estar biologicamente aperfeiçoado pode produzir efeitos catastroficamente destrutivos na estrutura geral da sociedade. Esta objecção é o exacto oposto da preocupação comummente expressa de que a felicidade «artificial» nos torne em otários satisfeitos mais vulneráveis ao controlo pelas elites dominantes (cf. o soma de Huxley). Ao invés, o argumento aqui é o de que o bem-estar superaperfeiçoado seria destrutivo para a hierarquia social natural – as estruturas de poder sobre as quais todas as sociedades primatas existentes se baseiam. O mau humor e o comportamento submisso desenvolveram-se nos mamíferos sociais como adaptação à vida em grupo – ela própria uma adaptação contra predadores. Abolir as bases da ansiedade/mau humor/comportamento submisso social pode tornar-nos todos em potenciais «alfas». O comportamento «alfa mais» irrestrito tornaria a sociedade ingovernável, mesmo no sentido mínimo libertário.

Resposta possível
O contra-argumento a isto é o de que esses cenários apenas ilustram a importância do planeamento prudente. A elevação massiva do humor sem controlo – por contraste com o enriquecimento emocional – podia realmente provocar comportamento hipercompetitivo, socialmente destrutivo, promovendo assim o risco de catástrofe global. O comportamento de dominação masculina competitiva numa era de armas nucleares, biológicas e químicas é talvez a ameaça mais grave à vida na Terra. Pelo que esta objecção é na realidade muito mais séria do que parece. Por outro lado, a elevação do humor pode também ser compassiva e pró-social. Os «neurónios especulares», por exemplo, podem ser multiplicados e funcionalmente amplificados, bem como o nível hedónico, reforçando assim a nossa propensão para o comportamento cooperativo. De igual modo, as hugdrugs* sintéticas de acção prolongada, análogos seguros e sustentáveis da MDMA (metilonodioximetanfetamina) e suas congéneres, são também viáveis – bem como os seus equivalentes genéticos. A coesão social pode ser biologicamente aperfeiçoada. As ramificações possíveis do enriquecimento radical do humor para as hierarquias sociais existentes são mal compreendidas porque esses cenários nunca foram sistematicamente trabalhados. Porém, esta negligência não é razão para «congelar» permanentemente a maior parte da humanidade na biologia da timidez submissa – a condição de muitos primatas sociais de «baixo estatuto» no mundo de hoje.

8) A objecção da PRESSÃO SELECTIVA
Pode ser tecnicamente viável, a curto prazo, amplificar directamente as bases do bem-estar em todo o período de vida. Pode até ser tecnicamente viável elevar o nosso nível hedónico «predeterminado» normal através de terapia genética somática ou de linhagem germinal. Mas a longo prazo, haverá pressão selectiva contra gradientes intensificadores da superfelicidade. Pelo que os cenários aqui discutidos não são realistas.

Resposta possível
Num mundo pós-envelhecimento, dentro de séculos, a reprodução terá de ser excepcionalmente rara e controlada centralmente – independentemente de os nossos descendentes quase imortais praticarem ou não a engenharia hedónica. De outro modo a Terra (ou em teoria a nossa galáxia ou superaglomerado galáctico local, etc.) excederá a sua capacidade física de conter mais habitantes. Todavia, este tipo de especulação envolve argumentos muito complicados sobre a natureza da pressão selectiva numa era em que o modo tradicional de gerar crianças foi mais ou menos abandonado.

Entretanto, haverá pressão selectiva intensa, mas há razões poderosas para crer que essa pressão selectiva funcionará contra quaisquer combinações genotípicas/alélicas tendentes à miséria darwiniana em todas as suas formas. Isto sucede porque estamos no limiar de uma revolução reprodutiva de bebés por encomenda. Os futuros pais irão em breve escolher as personalidades/características genéticas dos seus futuros filhos em vez de jogar à roleta genética. À medida que o planeamento responsável de crianças se tornar comum e o diagnóstico pré-implantação se tornar rotineiro, entrará em jogo uma forte pressão selectiva contra genes/genótipos tendentes aos modos mais soturnos de experiência humana. Este não é o lugar para ensaiar a criação de modelos em teoria dos jogos ou um tratado sobre genética populacional pós-humana. Portanto, para fins ilustrativos imagine apenas: se fosse um futuro pai a escolher as características genéticas dos seus futuros filhos, optaria por que configurações genéticas? Não desejaria genótipos predispostos a síndromes de ansiedade, doenças depressivas, tendências esquizóides e outras inequívocas patologias mentais; mas quão elevadas (ou teoricamente, quão baixas) seriam as configurações que preferiria para o nível hedónico normal dos seus filhos? Transculturalmente, os pais tipicamente afirmam querer que os seus filhos sejam felizes, ainda que de um modo «natural»; mas quão felizes? Os ruivos podem preferir ter filhos ruivos; mas poucos depressivos quererão filhos depressivos. Tudo o que é preciso para a pressão selectiva funcionar aqui é uma ligeira preferência parcialmente hereditária por crianças que um pouco mais temperamentalmente felizes [ou menos soturnas] do que nós próprios. A pressão selectiva é fundamentalmente diferente quando a evolução não é mais «cega» e aleatória no que diz respeito ao que é favorecido pela selecção natural – isto é, quando as combinações de genes/alelos são escolhidas/concebidas antecipadamente aos seus efeitos prováveis. Tal pressão selectiva está já manifesta nos animais nonumanos domésticos; afectará brevemente os humanos. Por isso temos razão em falar numa iminente era pós-darwiniana – não porque a pressão selectiva estará ausente (pelo contrário!) mas porque estamos preparados para mudar da era da selecção «natural» para a da selecção que não é natural.

Esta mudança reprodutiva de grande importância certamente não exclui a probabilidade de uma pressão selectiva contínua contra alguns modos de bem-estar subjectivo, p. ex., a felicidade indiscriminada. Assim os wireheads e os seus análogos naturais, por exemplo, estarão presumivelmente sempre em desvantagem reprodutiva. Mas um sistema motivacional de gradientes de superfelicidade altamente funcionais pode ser extremamente adaptativo se esse é o fenótipo comportamental que queremos para os nossos filhos. As crianças geneticamente predispostas a ser muito felizes e afectuosas são mais gratificantes de criar do que, seguramente, crianças depressivas. Devia sublinhar-se que este cenário optimista não significa que a vida social pós-humana se assemelhará a uma festa comunal ou a uma rave à base de MDMA. Pode haver análogos funcionais do realismo depressivo mesmo no paraíso.

9) a objecção dos PERIGOS DA VELOCIDADE
A prioridade devia ser a superinteligência, não a superfelicidade. Só depois de sermos suficientemente superinteligentes para compreender as implicações do que fazemos devíamos explorar o enriquecimento radical do humor. Os riscos de agir prematuramente e construir um falso paraíso são demasiado grandes.

Resposta possível
Formulada assim, esta objecção pode muito bem estar correcta. Só a superinteligência pode maximizar a função de utilidade do universo. Mas o enriquecimento emocional – por contraste com a amplificação rudimentar do prazer – é ele próprio presumivelmente um ingrediente crítico da superinteligência. Pelo que devíamos ter o cuidado de evitar construir uma falsa dicotomia: a superinteligência madura implicará supostamente uma capacidade inimaginavelmente enriquecida para a compreensão compassiva – uma «perspectiva do observador divino». Esta ideia é relevante porque – dadas algumas pressuposições bastante modestas e mesmo o mais ligeiro sentido de urgência moral – devíamos estar preparados, se necessário, para correr riscos para eliminar um flagelo terrível, para impedir o sofrimento e a crueldade para com as outras criaturas, ou para agir quando os riscos da inacção são maiores que os da acção. O que é importante é avaliar proporções risco-recompensa. Uma analogia óbvia é com o envelhecimento. Sem ademanes, todos estamos a morrer. Se considera o envelhecimento como uma terrível doença, então pode estar preparado para correr riscos para retardar a sua progressão. Assim pode-se tomar um cocktail diário de suplementos (p. ex. resveratrol, selegiline, etc.) que aumenta a longevidade e a esperança de vida em «modelos animais», mas cuja eficácia e segurança a longo prazo não foi provada em estudos longitudinais com humanos. Talvez a minoria de humanos «saudáveis» [isto é, moribundos] que adoptam esse regime não avaliem bem a proporção risco-recompensa envolvida; mas a ser assim, o erro não reside numa vontade de correr riscos calculados – apenas na sua estimativa errónea. Há tantos perigos na inércia como na iniciativa. De igual modo, as vítimas actuais de dor insuportável ou depressão crónica, cuja qualidade de vida é insuficiente (ou pior), podem justificadamente correr mais riscos terapêuticos, e explorar mais tratamentos experimentais, para aliviar a sua angústia do que os psicologicamente robustos que já gozam a vida ao máximo – segundo critérios darwinistas medíocres, em todo o caso.

Uma complicação desta análise é a de que todas as tecnologias de aperfeiçoamento podem ser consideradas terapia curativa segundo os critérios esclarecidos dos nossos sucessores. Porém há uma diferença fundamental entre correr riscos para aliviar uma doença grave, síndromes de dor crónica ou angústia psicológica prolongada e correr riscos para intensificar o bem-estar pré-existente.

Infelizmente, não há quaisquer atalhos. Pelo que nesse sentido a objecção é irrespondível. Os euforiantes recreativos correntes, por exemplo, podem dar aos seus utilizadores um sabor prévio ténue, fugaz, superficial da felicidade pós-humana; mas pela maior parte activam o círculo vicioso hedónico – e produzem efeitos secundários desagradáveis, insidiosos ou não. Vale a pena relembrar que algumas pessoas muito inteligentes foram seduzidas. O neurologista vienense de vinte e oito anos, Dr. Sigmund Freud escreveu um hino de elogio académico aos benefícios terapêuticos da cocaína, então recentemente isolada a partir da planta da coca. Bayer introduziu a heroína como um remédio para as tosses que não causava habituação. E nas palavras de um utilizador de heroína intravenosa: «É tão bom. Nem sequer experimente uma vez.» Qualquer potencial droga deslumbrante ou terapia genética que prometa um sucesso milagroso em direcção ao nirvana pós-humano tem de ser investigada simultaneamente com extraordinária urgência e extraordinário cepticismo.

10) A objecção do CHAUVINISMO CARBÓNICO
Esta discussão centrou-se no enriquecimento das «bases biológicas» da emoção. Porém dados alguns argumentos funcionalistas muito amplamente aceites na filosofia contemporânea da mente, por que não analisar, digitalizar e «transferir» a nós próprios para silicone ou outro meio – e então reprogramarmo-nos? O crescimento exponencial de poder de computação promete dotar os uploads da capacidade auto-reprogramadora de curar o envelhecimento, a enfermidade e a doença; obter a superinteligência; gozar de liberdade morfológica total; e amplificar os nossos meios de gratificação também. Se o crescimento exponencial do poder de computação [inorgânico] continuar sem impedimentos, esta transformação pode estar apenas a décadas – não os milénios que uma transição da massa cinzenta para a pós-humanidade presumivelmente implicam.

Resposta possível
O âmbito de opiniões entre os transumanistas sobre o uploading vai dos que pensam que é inevitável aos que o consideram um tipo de culto da morte milenarista. Se o seu objectivo ético dominante é «meramente» erradicar o sofrimento, então o uploading podia quase de certeza alcançar a sua abolição – de uma maneira ou de outra. Todavia, na sua maioria as pessoas não são utilitaristas negativas. Se quer que o «seu» upload alcance a supersenciência bem como a superinteligência, ou que lhe permita gozar níveis pós-humanos de bem-estar, obter a quase imortalidade, ou simplesmente conservar a sua identidade tal como a compreende hoje, então o risco existencial colocado pelo uploading é imenso – talvez o maior risco existencial que a espécie humana já contemplou. Pelo que antes de embarcar em qualquer coisa de tão revolucionário, é vital que tenhamos uma teoria convincente da consciência – e uma descrição matematicamente exacta das suas miríades de texturas – sob pena de criar zombies. Talvez sinta 99% de certeza em como os cépticos estão errados, p. ex., neurofilósofos que acreditam que a consciência unitária depende da coerência quântica, e portanto qualquer aspiração à senciência digital não trivial é vítima do «glissando de Von Neumann». Mas de um ou outro modo, a postulação da senciência in silico não é uma hipótese científica testável. Pelo que os defensores do uploading depositam muita fé numa teoria metafísica. Evidentemente, a convicção de que qualquer outra pessoa é consciente é também uma teoria metafísica, apesar de menos controversa.

Por meio de uma [falsa] analogia, considere o jogo do xadrez. Imagine um filósofo equivocado que afirma que o que interesse no que toca a jogar xadrez não é apenas a sequência de jogadas, mas também as texturas particulares das peças de xadrez individuais; e que os jogos de xadrez jogados com peças de madeira ou metal, digamos, ou jogos jogados online por meio de um computador, podem diferir em carácter mesmo se a sequência de movimentos realizada é a mesma. Sem dúvida, diríamos, este sujeito está simplesmente confuso: não compreendeu a ideia do jogo de xadrez. As texturas particulares das peças e mesmo a completa ausência de quaisquer texturas semelhantes em partidas de xadrez computorizadas, não são importantes, visto que as texturas, coloração, e composição física (etc.) das peças são funcionalmente irrelevantes para o desenrolar do jogo – um mero detalhe de implementação. Considere-se agora o uploading. Imagine-se mais uma vez um bioconservador aparentemente ingénuo que insiste que o que importa para o uploading com êxito não é apenas o comportamento [e disposições comportamentais] de uploads hipotéticos mas também as texturas particulares [também conhecidas como qualia: «como é para...»] dos seus estados mentais e perceptivos. Ora, num sentido, sim, as texturas fenoménicas [se as há] e a composição de base de um upload hipotético são meros detalhes de implementação – funcionalmente irrelevantes na medida em que o upload tem a estrutura funcional apropriada para sustentar relações de input-output idênticas à sua contraparte no mundo carnal. [«Se caminha como um pato, grasna como um pato...», etc.] Sim, se fôssemos exaustivamente definidos pelos nossos padrões comportamentais, então o espectro de qualia invertidos, «dor marciana», qualia ausentes, etc., não teria qualquer importância. Mas noutro sentido, criticamente importante, a analogia com o xadrez não funciona. «Como é para» mim pertence à própria essência da minha identidade pessoal: não é um detalhe trivial de implementação, mas definitivo relativamente a quem se é – à nossa natureza intrínseca. Se fizéssemos a mais leve ideia de como analisar, registar e digitalizar qualia, então o uploading podia ser viável; mas infelizmente não sabemos. Quase não há como exagerar a nossa ignorância científica acerca da consciência. Por agora, pelo menos, o uploading pertence ao domínio da fantasia científica em vez de ao da ficção científica.

Todavia, suponhamos para fins de argumentação que o uploading senciente será no futuro técnica e socialmente viável – talvez usando computadores quânticos com estrutura não clássica. Dado um cenário de upload massivo, não é claro o destino da massa cinzenta «deixada para trás». A menos que a vida orgânica tradicional seja para liquidar – ou seja, uploading «destrutivo», a solução final para o problema da vida orgânica – então os organismos darwinianos primordiais terão ainda de ser «salvos» pelos seus descendentes pós-orgânicos. Portanto, eis-nos de volta às bases biológicas da consciência, com as quais começámos.


Conclusão
Superinteligência, superlongevidade e superfelicidade?

Séculos de «progresso» tecnológico e socioeconómico não nos deixaram perceptivelmente mais felizes no decorrer de uma vida do que os nossos ancestrais caçadores-recolectores. Não há indícios científicos de que milhares de anos de remodelação do nosso ambiente tenha conseguido enganar o círculo vicioso hedónico um só avo. Assemelhar-se-á o futuro ao passado? Quase de certeza que não. A neurociência de amanhã promete revolucionar o bem-estar subjectivo, tanto individualmente como para a nossa espécie no seu todo. Mais especulativamente, podemos superar os nossos preconceitos antropocêntricos e enriquecer também a restante vida senciente.

Mas a que ponto? Ao contrário do poder de computação, um crescimento exponencial da felicidade é (presumivelmente) impossível, na ausência de tecnologias além da imaginação humana. Porém, garantir mesmo um crescimento linear aproximado dos seus biomarcadores representaria uma impressionante descontinuidade na história da vida até à data. Versões pós-humanas de uma zona amena - «não demasiado quente, não demasiado fria» – podiam potencialmente exceder o âmbito hedónico adaptativo para os nossos ancestrais hominídeos em várias ordens de magnitude, se não mais. Será que os nossos descendentes pós-humanos a dada altura decidirão, para fazer eco de Bill McKibben, «Basta!». É possível, mas se o farão, não é claro como, quando e porquê.

Vale a pena sublinhar que os géneros de cenário para o enriquecimento pós-humano do humor aqui explorados não são, maioritariamente, uma alternativa a outros cenários transumanos do nosso futuro, em particular a superinteligência e a superlongevidade. Pelo contrário, um controlo detalhado das nossas emoções juntamente com o enriquecimento motivacional devia permitir-nos, inalterado tudo o mais, realizar mas eficazmente estes cenários – e saborear muito melhor o seu resultado. Tão-pouco é o enriquecimento hedónico um tipo de prescrição sobre como viver a vida pós-humana – tal como ser curado de uma dor crónica não dita como se devia conduzir uma existência sem dores. «O mundo dos felizes é muito diferente do dos infelizes» observa Wittgenstein no Tractatus. Sim, e o mundo dos superfelizes é muito diferente do mundo humano. Se alguma vez investigaremos ou não as suas propriedades, contudo, é uma questão em aberto.


David Pearce
(2008)
with many thanks to translator Vitor Guerreiro. See too 1, 2, 3

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(Second Life, December 2008)
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